
Pense em alguém que você conhece que usou caneta emagrecedora. Provavelmente perdeu peso, talvez bastante. Depois parou por algum motivo: custo, prescrição encerrada, efeitos colaterais, ou simplesmente sentiu que já tinha chegado onde queria. E então, em alguns meses, o peso foi voltando.
Isso não é fraqueza. É biologia. E a ciência já documentou o processo com precisão.
O estudo de extensão do ensaio clínico STEP 1, publicado na revista Diabetes, Obesity and Metabolism, acompanhou os participantes após a suspensão da semaglutida. Resultado: um ano depois de parar, os pacientes haviam recuperado dois terços do peso perdido durante o tratamento. Uma análise publicada no British Medical Journal encontrou que o reganho de peso após interromper as injeções acontece quatro vezes mais rápido do que após suspender dietas convencionais, a uma média de 0,8 kg por mês.
No Brasil, com a chegada dos genéricos de semaglutida em 2026, esse ciclo vai se tornar mais comum. Mais pessoas vão ter acesso às canetas, e uma parcela significativa vai usá-las por um período definido, emagrecer, e depois parar. O hábito sustentável criado durante esse período é o que vai separar quem mantém o resultado de quem entra no clássico efeito sanfona.
A medicação é a ferramenta. O hábito é o que faz a ferramenta durar.
O que acontece no corpo quando você para a medicação
A semaglutida e outros agonistas do GLP-1 funcionam de formas que vão além de simplesmente reduzir o apetite. Eles regulam a produção de grelina, o hormônio da fome, e modificam a velocidade com que o estômago processa os alimentos. Enquanto você usa a medicação, seu corpo opera em um regime diferente.
Quando você para, esses mecanismos revertem. A fome volta. E não só isso: pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça identificaram que as células adiposas desenvolvem uma espécie de memória epigenética do excesso de peso. Mesmo após emagrecer, elas retêm marcações químicas que facilitam o retorno ao estado anterior quando as condições mudam. Em animais, os que tinham essa memória epigenética recuperaram peso significativamente mais rápido ao serem reintroduzidos a uma dieta calórica.
Isso explica algo que muitos percebem mas poucos conseguem articular: não é só que o peso volta, é que parece que o corpo estava esperando uma oportunidade para voltar.
A endocrinologista Alessandra Rascovski resume o mecanismo com clareza: "Toda vez que se para a medicação, principalmente após perder muitos quilos, volta a haver a diminuição de queima calórica e mudança do controle de fome e saciedade." Não é comportamental. É fisiológico.
O que a ciência oferece como contrapeso a isso são hábitos de movimento e alimentação consolidados antes de parar. Não porque eles anulam a biologia completamente, mas porque criam uma base metabólica e comportamental que torna o reganho mais lento e mais manejável.
A academia em janeiro e o mito dos 21 dias
Todo começo de ano, as academias brasileiras ficam cheias. As esteiras ocupadas, os aparelhos disputados, as turmas de musculação lotadas. Os próprios gestores de academias reconhecem o fenômeno: janeiro e fevereiro são os meses de pico. Março e abril, o esvaziamento. A piada já faz parte do calendário fitness nacional.
O que está por trás desse ciclo não é falta de força de vontade. É uma crença amplamente disseminada e cientificamente errada: a de que hábitos se formam em 21 dias.
A origem desse número é curiosa. Na década de 1960, o cirurgião plástico Maxwell Maltz observou que seus pacientes levavam cerca de três semanas para se adaptar psicologicamente a mudanças físicas, como uma cirurgia no nariz. Ele escreveu sobre isso no livro Psycho-Cybernetics, e o "21 dias" foi extraído do contexto e transformado em dogma do desenvolvimento pessoal.
O problema é que não tem nada a ver com como hábitos reais se formam.
A pesquisadora Phillippa Lally, da University College London, conduziu em 2010 o estudo mais citado sobre o tempo real de formação de hábitos. Ela acompanhou 96 pessoas tentando incorporar novos comportamentos de saúde no cotidiano, e mediu quando cada comportamento se tornava automático. O resultado: hábitos levaram entre 18 e 254 dias para se consolidar, com média de 66 dias. E hábitos de exercício físico ficaram consistentemente na ponta mais longa do intervalo.
Isso significa que quem vai à academia com empolgação em janeiro, desiste em fevereiro, e conclui que "não é para mim" provavelmente abandonou quando o processo de formação do hábito estava só começando. O hábito não estava quebrado. Só precisava de mais tempo.
Para quem está em tratamento com canetas emagrecedoras, essa informação muda o enquadramento por completo. Dois meses de exercício consistente durante o tratamento não é "tentar" e nem "começar bem". É aproximadamente o tempo mínimo para que o comportamento comece a se tornar automático.
O que realmente faz um hábito durar
A formação de hábitos não é um processo linear. Não é uma questão de "fazer X vezes até virar rotina". A pesquisa de comportamento mostra que alguns fatores têm muito mais peso do que outros.
Contexto consistente. Hábitos se formam mais rápido quando associados a um gatilho específico: um horário, um lugar, uma ação anterior. "Academia depois do trabalho, às 18h, na Smart Fit da esquina" se consolida muito mais rápido do que "vou tentar malhar na semana". O cérebro aprende em padrões. Quanto mais previsível o contexto, mais rápido o comportamento se torna automático.
Prazer no processo. Isso é talvez o fator mais subestimado. O psicólogo BJ Fogg, da Universidade de Stanford, passou duas décadas estudando formação de comportamentos e chegou a uma conclusão que vai contra a intuição de muita gente: não são as recompensas futuras que constroem hábitos, são as emoções positivas geradas durante o próprio comportamento. Quem odeia a academia mas força a ir por disciplina tem chances muito menores de continuar do que quem encontra algum aspecto prazeroso no processo, mesmo que pequeno. Uma aula que você curte. Treinar com alguém que te faz bem. Uma trilha sonora que você ama. Esses detalhes não são fúteis. São o mecanismo.
Escala adequada. Um estudo publicado na BMC Public Health que acompanhou intervenções de exercício mostrou que programas de intensidade moderada tinham taxas de adesão maiores do que programas de alta intensidade para pessoas que estavam começando do zero. Não porque os programas intensos não funcionem, mas porque o abandono é muito maior. Você não pode colher o benefício de um treino que você para de fazer.
Responsabilidade social. A Community Preventive Services Task Force revisou sistematicamente as evidências sobre intervenções de suporte social e concluiu que sistemas de buddy fitness, grupos de caminhada e contratos com parceiros aumentam os níveis de atividade física em adultos de forma mensurável. No Brasil, isso não é novidade: a cultura de treinar junto, de dividir o percurso, de competir de forma leve com amigos, já faz parte do jeito brasileiro de se exercitar. A ciência confirma o que a cultura já pratica.
Por que consistência bate intensidade, mesmo no Brasil
Aqui precisa de uma conversa direta.
A cultura fitness brasileira é esteticamente orientada. "Treino pesado", "glúteo no shape", "definição". O mercado de suplementos é enorme, os influenciadores de academia são seguidos por milhões, e a pressão por resultados rápidos e visíveis é real. Nesse contexto, a ideia de fazer um treino leve, três vezes por semana, parece fraca. Parece insuficiente.
Mas os dados dizem o oposto, especialmente para quem está construindo um hábito do zero ou reconstruindo depois de um período longo sem treinar.
Um estudo publicado no British Columbia Medical Journal resume a lógica central: "Treinos de intensidade moderada têm melhores taxas de retenção do que programas vigorosos, especialmente entre pessoas sedentárias." A pesquisa de adherência ao HIIT (treino intervalado de alta intensidade), publicada no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, encontrou que a taxa média de adesão a protocolos HIIT em ambientes não supervisionados é de 63%, comparada a 68% para exercícios de intensidade moderada contínua.
A diferença parece pequena. Mas composta ao longo de meses, ela é enorme.
Um treino pesado feito 40 vezes em seis meses produz menos resultado do que um treino moderado feito 70 vezes no mesmo período. A fisiologia de cada treino pode ser equivalente. Mas ao final do ano, você termina com muito mais horas de exercício real acumuladas.
Para quem está usando ou já usou canetas emagrecedoras, a lógica tem uma camada extra de urgência. Durante o tratamento, a energia pode oscilar. As náuseas dos primeiros meses da semaglutida são reais. Um compromisso de ir à academia cinco vezes por semana em intensidade alta vai quebrar quando surgir a primeira semana difícil. Um compromisso de ir duas ou três vezes, em treino leve a moderado, tem muito mais chance de sobreviver às semanas ruins.
E sobreviver às semanas ruins é o que define se um hábito dura.
A força do treinar junto no contexto brasileiro
No Brasil, academia raramente é uma atividade solitária. Quem treina, treina com alguém: a amiga do bairro, o colega de trabalho, a turma da corrida de rua. Existe uma sociabilidade no exercício físico brasileiro que não precisa ser inventada, só precisa ser aproveitada.
A pesquisa sobre responsabilidade social e exercício sustenta o que a cultura já sabe. Estudos publicados no Journal of Sport and Exercise Psychology mostram que pessoas que se exercitam em grupo têm maiores níveis de suporte social, o que se associa a maior adesão ao programa e melhores resultados de condicionamento do que quem treina sozinho buscando os mesmos objetivos.
O mecanismo não é complexo: quando alguém espera por você, a barreira para não ir fica maior. Quando alguém compartilha os resultados com você, a satisfação de ir fica maior. Os dois efeitos juntos criam uma estrutura que o esforço individual não consegue sustentar sozinho.
Para quem está construindo o hábito durante o tratamento com canetas emagrecedoras, a aplicação prática é direta: encontre uma pessoa, só uma, com quem você se comprometa a treinar pelo menos duas vezes por semana. Não precisa ser uma parceria perfeita. Não precisa ser alguém no mesmo nível de condicionamento. Só precisa ser alguém que cria a expectativa de que você vai aparecer.
Esse comprometimento externo é o que transforma uma intenção individual em algo com mais resistência.
Como o Motion ajuda a construir essa estrutura
O desafio de quem está em tratamento com canetas emagrecedoras não é saber o que fazer. É criar a infraestrutura que torna o fazer consistente ao longo de meses, especialmente nos períodos em que a energia está baixa e a motivação some.
As metas adaptáveis do Motion analisam seu histórico de atividade das últimas 12 semanas e ajustam seus objetivos semanais automaticamente. Se você teve uma semana difícil com efeitos colaterais da medicação, sua meta reflete isso. Você não acorda depois de uma semana ruim com uma meta impossível que já parece derrota antes de começar. As metas crescem com você, de forma gradual, sem exigir perfeição.
Os desafios semanais com amigos funcionam por esforço relativo, não por volume absoluto. Quem fez 60% da sua meta pessoal compete em igualdade com quem fez 60% da meta do parceiro de treino, independentemente de quem se move mais em números absolutos. Isso cria o tipo de responsabilidade social que a pesquisa aponta como o fator mais duradouro de adesão ao exercício, sem criar a pressão de comparação com alguém em um nível completamente diferente do seu.
O Motmot, o bichinho virtual do Motion, é uma forma inusitada de criar motivação emocional. Ele cresce quando você se move e fica preocupado quando você para. Parece simples, mas a motivação emocional, cuidar de algo que responde às suas ações, ativa o mesmo sistema de recompensa que a ciência de BJ Fogg descreve como central para a formação de hábitos. Você move o corpo não só por disciplina, mas porque quer ver o resultado no bichinho.
Se você já leu nosso post anterior sobre exercício e canetas emagrecedoras, sabe que construir o hábito de treinar durante o tratamento protege sua massa muscular. O Motion é a estrutura que torna esse hábito mais fácil de manter quando a motivação está baixa.
O hábito é a estratégia de saída
No Brasil, muitas pessoas vão usar canetas emagrecedoras por um período definido e depois parar. Seja por custo, seja porque atingiram o objetivo, seja por orientação médica. Isso não é um problema. É a realidade do acesso e do tratamento no país.
O problema é parar sem ter construído nada além do resultado na balança.
O reganho de peso após a interrupção das injeções não é inevitável, mas é provável se nada mudou além do peso. A pesquisa é clara: o que protege contra o efeito sanfona é o que faz sentido intuitivamente, uma rotina de exercício consolidada, uma relação diferente com o movimento do corpo, uma estrutura de responsabilidade que não depende da medicação para existir.
Hábitos levam meses para se formar. Dois, três, às vezes cinco meses de prática consistente antes de virarem automáticos. Isso significa que o período de tratamento com canetas emagrecedoras não é só o momento de emagrecer. É a janela de oportunidade para construir o hábito que vai manter o resultado duradouro depois.
Começar hoje, mesmo com treino leve. Mesmo com dois dias por semana. Mesmo que pareça pouco.
O pouco feito com consistência ao longo de meses é o que muda o placar.
Sources
- Wilding JPH et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(8):1553-1564. doi:10.1111/dom.14725
- Rubino DM et al. Effect of weekly subcutaneous semaglutide vs daily liraglutide on body weight in adults with overweight or obesity. JAMA. 2022. (Systematic review, BMJ weight regain analysis cited via CNN Brasil)
- Lally P, van Jaarsveld CHM, Potts HWW, Wardle J. How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology. 2010;40(6):998-1009. doi:10.1002/ejsp.674
- Singh B, Murphy A, Maher C, Smith AE. Time to Form a Habit: A Systematic Review and Meta-Analysis. Healthcare. 2024;12(23):2488. doi:10.3390/healthcare12232488
- Correia Braziliense. Efeito sanfona: reganho de peso está associado à memória das células adiposas. Novembro 2024
- Dishman RK, Heath GW. Attrition and Adherence Rates of Sustained vs. Intermittent Exercise Interventions. PMC3181282. 2011
- Community Preventive Services Task Force. Physical Activity: Social Support Interventions in Community Settings. The Guide to Community Preventive Services. 2021
- ABESO/SBEM. Tratamento Farmacológico do Indivíduo Adulto com Obesidade e seu Impacto nas Comorbidades: Atualização 2024. Posicionamento de Especialistas